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Universo do Conhecimento

Edgar Morin recebe título de "Honoris Causa" na PUC Imprimir E-mail
Leia, na íntegra, o discurso de Danilo Miranda por ocasião da entrega do título de "Honoris Causa" a Edgar Morin, na PUC. Quero saudar primeiramente à PUC de São Paulo. Essa Universidade que ao longo da história tem se revelado importantíssima, tanto pela qualidade de seu trabalho formador, quanto pela maneira inovadora com que atende e está afeita às questões da comunidade acadêmica e universitária.

Nesses 62 anos de idade, os mesmos do SESC, há uma trajetória de crescimento na qualificação profissional e acadêmica, o que torna essa Universidade singular. A PUC de São Paulo é, de fato e por mérito, um patrimônio cultural e histórico e, por isso, e pelos milhares de alunos que a freqüentaram e que hoje contribuem nos desígnios desse país, merece ser sempre considerada com os melhores augúrios em todas as suas questões institucionais, para benefício de todos.

Meu caríssimo Edgar Morin!

É uma grande honra hoje estar aqui para saudá-lo e, mais uma vez, agradecer a todas as contribuições que tem nos dados para entrender e transformar o  mundo.

Como já revelei, esse título reafirma a posição dessa Instituição. Além de ser uma referência no meio acadêmico do país, pela qualidade com que desenvolve suas pesquisas e atividades, essa Universidade tem mantido posturas libertárias seja resistindo ao regime militar a partir de 1964, seja na promoção permanente de formas democráticas entre professores, alunos e funcionários.

Caro amigo Edgar Morin,

Minhas palavras aqui colocadas não falam apenas em meu nome mas, em nome de toda a entidade SESC São Paulo, formada por mais de 3.800 funcionários.

Desde nossa aproximação, em 1996, por ocasião do encontro realizado pelo SESC SP (Seminário entitulado) "Cultura das Metrópoles", passamos a refletir melhor sobre suas propostas, aplicando-as em nossa prática institucional.

Dia a dia temos buscado incorporar, como diretrizes de uma ética institucional diferenciada, a complexidade, em seus significados dialógico e helogramático mais elementares, tentando superar as contradições existentes sem eliminá-las, e alargando a compreensão dos fatos socioculturais, em diferentes aspectos. Ilustrado pelo nosso código genético que cabe todo numa só célula, trafegamos nas questões não apenas conferindo a parte ao todo, mas o todo e sua expressão na parte.

A tarefa, como voce mesmo afirma, é imensa e histórica. Buscar um elo entre tantos sentidos fragmentados e compartimentados no âmbito da transversalidade educativa a que o SESC se propõe requer um exercício permanente de atualização dos profissionais e nossos agentes, para uma prestação de serviços socioculturais com qualidades efetivamente transformadoras.

Mas creio que temos avançado, no sentido de questionar as desilguadades, promovendo o acesso, no sentido de provocar novas posturas de cidadania mais participativas e em acordo com os princípios mais atuais de preservação e sustentabilidade.

Nossas unidades talvez não sejam as Casas de Fraternidade que você defendeu e defende, por ocasião das reformas sociais e políticas de um mandato à presidência (artigo Se eu fosse candidato - 24/04/07), mas temos preconizado práticas de equilíbrio das desigualdades culturais e sociais.

Aliás, tal como você argumenta temos procurado estimular em cada um de nossos frequentadores, percepções novas para vidas com possibilidades diferentes de desenvolvimento, já que não podemos fazerm as pessoas viverem, diretamente.

Mas você bem conhece nossa entidade e as formas de nossa atuação. O que retendo aqui é prestar uma homenagem a Sua sabedoria, sua lucidez e à poesia que está presente na sua ciência professada e na Sua defesa política de todas as formas vivas do planeta.

A crise do conhecimento ou da razão é também uma crise do excesso de informações, agravada pelo erro e pela ilusão que acomete as percepções. A velocidade com que temos produzido bens, úteis e inúteis, talvez seja a mesma com que se produzem informações, muitas destas dispensáveis em boa parte. E vai daí que, ainda assim, não conseguimos ampliar nosso conhecimento.

Tudo se mantém compartimentalizado, separado e, como se não bastasse isso, os temas fundamentais da educação, têm sido deixados de lado. Na era da técnica e da especialização, não conseguimos mais ensinar a dúvida e a elaborar as pergundas necessárias a respeito do mundo, da natureza e de nós mesmos.

A esse propósito e considerando as origens da filosofia, em que tudo de vinculava ao universo, à história e à natureza, as perguntas e as idéias era dirigidas ao - Onde e como estamos no mundo?

Para localizar-se era preciso obter respostas até simples, desde que se pudessem ter como referências o entorno, a terra e seus frutos, a natureza e a busca do prazer mediada pela resignação diante do infortúnio.

Desde os primórdios do homo sapiens e todos os desafios postos a sua sobrevivência, houve um determinado  momento em que o homem se pôs a questionar, os fenômenos da natureza - possivelmente raios, trovões e tempestades - e, para suas respostas, talvez tenha ordenado uma mitologia que nunca nos abandonaria, embora tenha perdido muito de seu significado com a  ciência.

Mesmo depois de prometer obediência aos muitos deuses que criara, continuou a propor perguntas. Mas porque o mundo, porque as diferenças culturais e religiosas? Porque os mares, as estrelas, o planeta, o sol e a lua? Quem somos nós? E aí a mente inquieta formulou a grande questão, que não nos abandonaria até que se ofertasse à ciência a responsabilidade única em respondê-la: O que é ser humanos (em todas as suas variações biohistóricas) e Para que estamos nesse planeta?

E se o conhecimentos dos fatos muda também segundo os tempos e por causa da incerteza, que parece ser inerente ao testemunho humano, cada século teve um conjunto de idéias transformado diante dos séculos precedentes.

E hoje, mais do que nos últimos 50 anos, podemos postular novas questões, menos porque o conhecimento nos auxiliou a fazê-lo e, muito mais porque, entre alguns, o filósofo crítico Edgar Morin, em seus 87 anos de idade, tem nos ensinado a crer nas dúvidas, estimulando uma nova ordem de questionamentos sobre o mundo, as pessoas e todas as interações cuturais e naturais que nos fazem humanos.

E para personificar tamanha contribuição, finalizo minha homenagem lembrando dos versos na voz de Caetano Veloso, na música - Um índio, de 1977 - de autoria de Bira da Silva:

"E as coisas que sei que ele dirá, fará, não sei dizer assim de um modo explícito. (...)"

"E aquilo que nesse momento se revelará aos povos, surpreenderá a todos não por ser exótico, mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto, quando terá sido o óbvio".

Muito Obrigado

Danilo Miranda

 

 
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